A Biblioteca Pública do Amazonas tem aquele cheiro específico de tempo paralisado. Estantes de madeira nobre, silêncio reverente e o peso de anos de história vigiando quem entra. Mas quando Geovan Motter senta para conversar, a atmosfera muda. Ele não tem a aura empoeirada de um guardião de livros raros; ele tem a energia de quem acabou de sair de um estádio de futebol.
E não é metáfora. Geovan é uma anomalia estatística: um ex-jogador de futebol profissional que trocou as chuteiras pela prancheta de desenho. Nascido em Apuí, no sul do Amazonas, à beira da Transamazônica, um lugar onde as bancas de revista não chegavam, ele transformou a escassez em combustível.
Enquanto a luz da manhã invadia as janelas altas da Biblioteca, iluminando a poeira em suspensão, conversamos sobre a logística infernal de fazer quadrinhos na Amazônia, a obsessão por Dragon Ball e por que, na visão dele, Cristiano Ronaldo é maior que Messi.
“Eu não queria que me contassem a história. Eu queria ler a história”
Revista: Você cresceu em Apuí. Como os quadrinhos chegaram até você num lugar onde nem banca de revista existia?
Geovan Motter: Na base da "encomenda de viagem". A cidade mais próxima, Humaitá, ficava a 420 quilômetros. Quadrinhos e livros simplesmente não chegavam lá. Meus primeiros gibis, um do Cascão e um do Chico Bento, vieram na mala dos meus pais depois de uma viagem a Porto Velho. Eu tinha uns 4 anos e não sabia ler, mas aquilo virou minha obsessão. Eu me alfabetizei praticamente sozinho antes da hora porque eu não queria mais que os outros me contassem a história. Eu queria ler aquilo. Ali, a leitura e o desenho viraram meu combo de sobrevivência.
Revista: É verdade que você jogou profissionalmente? Como foi essa transição do campo para o nanquim?
Geovan Motter: Sim, saí de casa aos 16 anos para jogar fora, fui até para o Rio Grande do Sul. Mas o futebol é ingrato. Você precisa de talento, claro, mas precisa de muita sorte e de um clube que não quebre no meio do campeonato. Quando o clube ficou sem dinheiro, tive que voltar para o Amazonas. Foi ali que decidi: precisava de algo que dependesse mais de mim. Entrei na faculdade de Design, transformei o quadrinho em TCC e entendi que criar narrativas gráficas é uma ciência. Hoje, jogo minha bola toda semana, mas meu jogo profissional é na mesa de desenho.
“A gente compete com a Marvel e com a geografia.”
Revista: Você tem um estúdio, o Quadrinhos Cão. Qual é a realidade de produzir e vender quadrinhos independentes a partir de Manaus?
Geovan Motter: O maior vilão é a distância. Temos um cenário consolidado de artistas aqui, mas falta espaço e logística. Para imprimir barato, muitas vezes temos que mandar fazer fora do estado e pagar frete para trazer de volta. A gente vive de eventos, como a Semana do Quadrinho Nacional de Manaus. É ali que o leitor vê a gente, pega o material, conversa. Na internet ou num evento geek genérico, a gente compete com o Goku e com a Marvel. É difícil. O edital público ajuda a girar a roda, a pagar os artistas parceiros, mas a gente precisa furar a bolha e fazer esse material chegar fisicamente no resto do Brasil.
Revista: Falando em competição... No futebol, quem leva a melhor na sua visão: Messi ou CR7?
Geovan Motter: Cristiano Ronaldo, sem dúvida. Explico: o Messi nasceu com um talento absurdo, talvez só comparável ao Ronaldinho Gaúcho. Mas o Cristiano? Ele é a construção do trabalho duro. Ele treinava pós-treino. Eu me identifico com isso. O Neymar e o Ronaldinho tinham talento para serem maiores que todos, mas faltou o foco. O Cristiano é a prova de que a dedicação supera a genialidade preguiçosa. É essa mentalidade que tento levar para o meu trabalho.
Revista: Existe uma nova onda de quadrinhos amazônicos. O que você recomenda e o que falta para essa cena explodir?
Geovan Motter: Falta gente nova. Desde 2018, vi poucos artistas surgindo. A molecada conhece a Marvel, mas não sabe que tem gente em Manaus fazendo quadrinho de alto nível. Minha recomendação? Maramunhã e Ajuricaba. São obras que resgatam a história dos povos Manaós e Sateré-Mawé com pesquisa séria. O recado é esse: fortaleçam o cenário. A Sâmela, do Norte em Quadrinhos, diz algo essencial: a nossa cultura sempre foi contada por gente de fora, de forma superficial. Agora é a nossa vez. Quem é melhor para contar nossas histórias do que nós mesmos?
Geovan Motter não é o típico quadrinista que viveu trancado no quarto. Ex-jogador de futebol profissional, ele traz a disciplina tática dos gramados para as páginas das HQs. Designer por formação e contador de histórias por teimosia e fundou o estúdio Quadrinhos Cão.
Seu trabalho mais famoso, Totó, é inspirado em um cachorro real que tinha a inteligência de uma criança de 5 anos. Mas Geovan não joga sozinho: ele é peça-chave na diagramação e edição de obras fundamentais do cenário manauara, colaborando com estúdios como o C4 e o Hipercomics. Seu traço carrega a influência óbvia de Akira Toriyama (Dragon Ball), mas com o tempero de quem precisou cruzar a Transamazônica para buscar o primeiro gibi.
Se você quer sair do eixo Rio-SP e entender o traço do Norte, Geovan recomenda: 1. Maramunhã (Evaldo Vasconcelos): Uma fábula com animais antropomorfizados, mas baseada em pesquisa antropológica densa sobre o povo Sateré-Mawé. 2. Ajuricaba (Ademar Vieira / Jucelino Nery): A história da resistência indígena e dos povos Manaós, resgatando heróis locais que os livros escolares esqueceram. 3. Super Amarelo: A prova de que o talento é hereditário. Um herói sem nariz e orelhas, criado pelo filho de Geovan, que resolve os problemas na base da sorte, e que esgotou a tiragem em um único evento.
Apoio da Secretaria de Estado de Cultura e Economia Criativa do Amazonas e Adaixa Cosméticos