Sandra Godinho – Confissões no Palácio da Justiça

Eu estava suando frio. Talvez fosse o calor implacável de Manaus ou a imponência opressora da Sala do Júri no Palácio da Justiça, onde o ar condicionado parecia lutar uma batalha perdida contra a temperatura lá fora. Ou talvez fosse apenas o peso de estar prestes a interrogar uma das vozes mais contundentes da literatura contemporânea da região norte do Brasil.

O silêncio do tribunal vazio era absoluto, criando o cenário perfeito para uma conversa que seria tudo, menos leve.

À minha frente, Sandra Godinho mantinha a calma de quem já viveu muitas vidas. Aos 65 anos, ela não tem a postura de escritora acadêmica intocável. Ela se define como "caseira" e "dona de casa", mas não se deixe enganar: por trás dessa fachada tranquila, existe uma mente que disseca ditaduras, massacres indígenas e a psicopatia humana com a precisão de um legista.

Sandra é uma forasteira que virou local. Ex-estudante de arquitetura que largou a USP para viver uma vida nômade pelo Brasil acompanhando o marido, ela só encontrou sua voz — e a cidade de Manaus — depois de criar os filhos. Ali, na cadeira das testemunhas, conversamos sobre por que a literatura precisa ser um ato de coragem e por que a educação não pode ter partido.
“É uma bênção e uma maldição: quem escreve não consegue parar”
Revista: Você não é daqui, mas a sua literatura fala sobre a Amazônia. Como foi cair nessa realidade e decidir escrever sobre ela?

Sandra Godinho: Eu sempre me senti um peixe fora d'água. Vivi em diáspora pelo Brasil, tentando descobrir que identidade era essa que surgia a cada mudança. Quando cheguei a Manaus, já com três filhos adolescentes, fui cursar Letras e algo despertou. Foi uma urgência. O professor Lázaro de Silva me empurrou para esse abismo.
Descobri que escrever é uma bênção e uma maldição ao mesmo tempo: você simplesmente não consegue parar. Mas o que me pegou foi o silêncio. Eu olhava para a história de Manaus e via eventos cruéis, marcantes, e me perguntava: "Por que ninguém escreveu sobre isso até agora?". Havia muitos poetas, mas faltava quem contasse a história suja.

Revista: O seu livro Tocaia do Norte toca na ferida do massacre Waimiri-Atroari durante a ditadura. Por que mexer nesse vespeiro agora?

Sandra Godinho: Porque existem histórias que exigem ser contadas. A construção da BR-174 passou por cima de nove aldeias indígenas. Não desviaram porque havia minérios ali. A ditadura nos impôs um silêncio, uma narrativa falsa de "progresso" e "ausência de corrupção" que muita gente ainda compra.
Eu demorei cinco anos gestando esse livro. Eu precisava falar sobre o que foi proibido. Hoje, documentos como o Relatório Figueiredo — 7 mil páginas de atrocidades que tentaram queimar, mas sobreviveram — estão aí para quem quiser ver. O meu papel não é escrever livro de História, é usar a ficção para tornar essa verdade palatável, para que o leitor sinta o gosto amargo do que aconteceu.
“Eu tenho 65 anos. Não tenho tempo a perder com coisas que todo mundo faz”
Revista: Você tem uma abordagem muito séria. Não existe espaço para o lírico ou o leve na sua estante?

Sandra Godinho: Sinceramente? Não. Eu não posso escrever um romance "água com açúcar". Eu tenho 65 anos, não tenho tempo a perder escrevendo o que todo mundo já faz. Eu preciso de relevância. As histórias que eu vejo são cruéis, então o lirismo da poesia não combina comigo agora.
Eu sou metódica. Quando começo um livro, já sei o começo, o meio e o fim. Nada está lá para "encher linguiça". Se tem um vestido amarelo na primeira página, ele tem que ter uma razão para existir. Escrever o primeiro esboço é a parte fácil; a reescrita é a tortura necessária.

Revista: Estamos na era digital, mas a Região Norte ainda sofre com índices baixos de leitura. Como resolver essa equação?

Sandra Godinho: Precisamos parar de reinventar a roda a cada quatro anos. A educação tem que ser suprapartidária. É um absurdo que, quando muda o governo ou a ideologia, se desfaça tudo o que o anterior fez, mesmo que fossem boas ideias.
Alfabetização digital é ótima, mas não adianta nada se não tivermos a alfabetização primária. O leitor precisa de capacidade crítica, não só de decodificar palavras. Não existem duas Manaus diferentes; a cidade é uma só. Precisamos largar o partidarismo e tratar a educação como um projeto de nação que perdure.
“Aquele cara que parece bonzinho pode ser um crápula dentro de casa”
Revista: O que você consome para relaxar? Comédia romântica? Series?

Sandra Godinho: Você vai rir e dizer que sou louca, mas eu adoro Dexter. Sim, a série do psicopata. Eu fico fascinada com o roteiro, com as viradas de trama. Eu gosto de suspense psicológico, daquilo que expõe a complexidade humana.
Isso me atrai porque não existe ninguém totalmente certo ou errado. Aquele vizinho que parece um santo pode ser um monstro entre quatro paredes. São essas máscaras sociais que me interessam. A literatura serve para isso, para tirar a gente do pedestal e nos humanizar.
Quando a entrevista terminou, o peso das palavras de Sandra Godinho parecia preencher cada canto daquela sala de júri vazia. Não havia vereditos ali, apenas a constatação urgente de que, seja na literatura ou na política, estamos correndo contra o tempo para recuperar nossa própria humanidade. Saí do Palácio da Justiça ainda suando, mas com a certeza de que algumas histórias não podem, e não vão, ser silenciadas.
Sandra Godinho é uma escritora serial. Sua escrita foca em momentos e perspectivas das crueldades da história. Metódica, acredita que nada acontece por acaso. Sua voz busca marcar o leitor com ficções que desafiam os limites da realidade… ou o contrário. É autora de mais de 15 livros. Entre seus títulos mais contundentes, destacam-se: Tocaia do Norte (2020), A Secura dos Ossos (2023) e Memórias de uma Mulher Morta (2025). 

Apoio da Secretaria de Estado de Cultura e Economia Criativa do Amazonas e Adaixa Cosméticos

Palácio da Justiça do Amazonas - Outubro, 2025

Fotos por Auriscar Perez Aguilar