Encontramos Maria Elena Morán no Memorial da América Latina, em São Paulo. Ela fala com calma, mas o que diz é impactante. Sua literatura não tenta explicar a Venezuela, busca sobreviver a ela. Longe do país, mas ainda atravessada por ele, Maria escreve sobre o que ficou depois da promessa: o fracasso, a memória e a culpa.
“Eu escrevi porque não conseguia fazer outra coisa”
Revista Rio Negro: Você escreve sobre uma ferida que ainda esta aberta; a diáspora venezuelana. Mas faz isso desde fora. Escrever é um alívio ou uma forma de lidar com situação?
Maria Elena Morán: Escrever, pra mim, sempre foi uma tentativa de entender o mundo. Nem sempre dá certo. Mas esse livro nasceu de duas coisas: necessidade e culpa Eu escrevi durante os anos mais duros da crise. E, naquele momento, eu tinha medo de escrever sobre algo que ainda estava acontecendo. Parecia cedo demais, quase irresponsável. Só que eu não conseguia escrever sobre outra coisa. Minha cabeça estava completamente tomada pelo que estava acontecendo na Venezuela. E também havia um sentimento muito forte de responsabilidade. De ter participado, como cidadã, da construção daquele fracasso. Então sim, é quase um mea culpa. Escrever foi como pegar tudo isso. Trauma, imagens, memórias, e colocar sobre uma mesa. E tentar organizar. E, nesse processo, eu me reorganizei também. Saí desse livro diferente. Como se tivesse expurgado alguma coisa.
Revista Rio Negro: É possível escrever sobre isso sem deixar que a experiência pessoal contamine a narrativa?
Maria: Não só contamina, é inevitável. A literatura não é imparcial. Mesmo que eu estivesse escrevendo sobre um astronauta, eu ainda estaria falando de mim. Da minha visão de mundo. Então, imagina num livro que nasce de uma experiência tão próxima. Os personagens compartilham esse lugar: o de quem acreditou. O de quem participou. O de quem, em algum momento, percebeu que tinha aceitado coisas demais.
“Não existe escrita imparcial”
Revista Rio Negro: Você vê paralelos entre o que aconteceu na Venezuela e o que acontece hoje no Brasil?
Maria: Vejo sinais que me preocupam. A polarização é extremamente perigosa. Porque ela empobrece o debate e transforma o outro em inimigo. E quando isso acontece, a democracia começa a se desgastar. No Brasil, ainda existem instituições funcionando, uma certa estabilidade. Mas isso não significa que não haja risco. O problema nunca chega da forma que a gente espera.
“O que eu mais sinto falta são as pessoas”
Revista Rio Negro: O que você mais sente falta da Venezuela?
Maria: Das pessoas. Eu penso muito na minha casa, na minha família. A casa cheia, sempre cheia. Música, gente dormindo no chão, comida sendo feita pra muita gente. Era um caos — mas era o meu mundo. Hoje, muita gente não está mais lá. Meu pai não está mais vivo. Então não é só um lugar que se perdeu. É um tempo. É uma forma de existir.
Revista Rio Negro: Que conselho você daria para jovens escritores, especialmente de regiões com pouca visibilidade?
Maria: Leiam tudo o que puderem. Mas, mais do que isso: criem comunidade. Se não existe espaço, criem. Revistas, encontros, grupos. Ninguém constrói nada sozinho. E, se não te dão lugar, você precisa tomar esse lugar.
Maria Elena Morán não escreve para explicar a Venezuela. Ela escreve para entender o que restou dela dentro e fora. Seus livros não são sobre política. São sobre as consequências humanas dela. Sobre acreditar. Sobre errar. E sobre o que fazemos depois disso.
Maria Elena Morán é escritora e roteirista venezuelana. Formada em Comunicação Social pela Universidad del Zulia e em Roteiro pela Escuela Internacional de Cine y Televisión, é mestre e doutora em Escrita Criativa pela PUCRS. Autora de Os continentes de dentro (2021) e Voltar a quando (2023), venceu o Prêmio Café Gijón.
Agradecimentos: A Organização Casa Venezuela e Adaixa Cosméticos