Bruno, além de mostrar seu talento por meio da escrita das músicas do Boi Garantido, se destaca pelo forte engajamento com a memória, a resistência e a identidade dos povos da floresta. “Maloca Sitiada” é um grito de denúncia e lamento e também de esperança, onde a dor da perda territorial e cultural se entrelaça com a afirmação da ancestralidade e da conexão espiritual com a terra.
MALOCA SITIADA
Teus olhos vermelhos, tua dor estampada em teu rosto
Marcando tua alma em batalha, em gotas de lágrimas roladas
Transcendem além do tempo, ainda habitam em meu pensamento
Do que se perdeu num instante, agora é lembrança de um tempo distante
Ficou pra trás, não voltam mais.
A mata se fecha em cada passada ao relento
Descansa em teu sono profundo, verdejantes folhas sagradas
A história, a memória, um abismo em minha trajetória
Do que se perdeu num instante
Agora é lembrança de um tempo distante
Ficou pra traz, não voltam mais.
Sou filho do Mato, o ser da floresta
Lutar pela vida é o que me resta
A minha insistência, por sobrevivência
E difícil de compreender.
Lutei pela terra, Lutei pela mata
Lutei pela flecha, Lutei pela taba
Enquanto houver esperança
A força e a fé há de prevalecer.
Sou da tribo isolada, Sou maloca sitiada
Saqueada, extinta, Caçada, sangrada
Explorada, vestida a força descatequisada
Sofrendo exílio em terras demarcadas.
Restam pouco ou quase nada
Dos milhões que já lutaram
Éramos grandes, palácios gigantes
De palhas constantes.
Em meio ao terreiro derramaram sangue
Destruindo a vida dos filhos
Da terra da mata e dos rios.
Entre as ruínas do eldorado
Sem arco e flecha e tacape nas mãos
Nem meu corpo escarificado
Acorrentado ou chicoteado
A única arma que tenho
É minha oração
E como tudo que já foi dito antes,
Meras palavras de um peso morto
Mão de obra barata, um passado irrelevante
Apenas lembranças de um tempo distante
Que ficou pra trás
Não voltam mais.
O meu canto sucumbiu.
Sobre o Autor
Bruno Bulcão Castro, 36 anos, é poeta, compositor e educador natural de Parintins (AM). Licenciado e pós-graduado em Matemática pela UEA, carrega forte herança cultural dos avós — ela, professora; ele, compositor do Boi Garantido. Essa influência marca sua obra, que une lirismo poético e a musicalidade amazônica.
Autor de toadas de destaque no Festival de Parintins, como “Meu Nome é Povão” e “Devaneio”, Bruno alcançou grande projeção com “Perreché da Puraçá” (2024), que ultrapassou 1 milhão de execuções no Spotify. Como poeta, foi finalista do 1º Concurso de Poesia Jovem Thiago de Mello (2024) com o poema “Morre um Poeta e Nasce uma Estrela”.

