Roraima tem uma daquelas dinâmicas climáticas que confundem quem vem de fora: é úmido, mas ao mesmo tempo seco. No entanto, no dia em que cheguei a Boa Vista, o clima estava estranhamente frio. Minha missão me levou ao Café com Paz, um ponto de encontro clássico da cena literária local. Fui recebido por Márcia, a mente empreendedora por trás do espaço. Pouco depois de eu pedir um café, Aldenor Pimentel abriu a porta de vidro do restaurante.
Aldenor não tem a pressa ansiosa comum às grandes metrópoles. Ele carrega uma presença pacífica; você sente a tranquilidade dele segundos antes mesmo do cumprimento. Sentamos na paz do café para entender uma charada complexa: como é fazer literatura no extremo norte do Brasil, uma região que o resto do país insiste em ignorar?
Para ele, a resposta é reta e direta. Escrever em Roraima não é só teimosia. "É um ato de resistência, é uma forma de militância", diz Aldenor, "de dizer que existimos e de mostrar ao restante do Brasil e do mundo quem somos".
A Bolha do “Norte do Norte”
O Brasil tem o péssimo hábito de virar as costas para o Norte, e o Norte, muitas vezes, ignora Roraima. Ironicamente, o estado sempre foi uma mina de ouro criativa. Mário de Andrade bebeu de fontes indígenas locais para criar o gigante Macunaíma, e Sir Arthur Conan Doyle usou o Monte Roraima como palco para O Mundo Perdido. "As pessoas não sabem que Roraima é a nossa fonte", ele reflete.
Hoje, a cena ferve com talentos próprios que aos poucos furam essa bolha invisível. Aldenor cita com orgulho nomes como Cristino Wapichana, escritor indígena roraimense premiado na Suécia e vencedor do Jabuti. Para dar um empurrão na nova geração, Aldenor criou o concurso literário Palavradeiros (um trocadilho com "palavra" e "lavrado", a savana roraimense), que desde 2016 descobre talentos nas periferias e escolas públicas, incluindo alunos indígenas e venezuelanos.
O Prêmio Não Paga a Conta de Luz
Aldenor não é um novato. Ele já coleciona cerca de decenas prêmios literários. Mas a gente sabe que no Brasil, status não enche geladeira. Quando joguei a real sobre como ele se sustenta, a resposta veio sem romantismo: "A arte não é minha principal fonte de renda, eu sou funcionário público".
E é exatamente esse emprego formal que banca a sua anarquia criativa. "Isso me permite uma liberdade ao ser artista. Eu posso escrever aquilo que eu quiser, independente se isso vai vender muito ou não". Para tirar os projetos do papel de forma sustentável, ele virou um estrategista de editais públicos (Leis Paulo Gustavo, Aldir Blanc), captando recursos para que seus livros e filmes existam sem deixá-lo no vermelho.
Um Protesto Político que Parou na Índia
A prova de que ele faz o que quer — e que isso dá bizarramente certo — é a história de seu filme de animação. Tudo começou como um poema de protesto. "Nós tínhamos uma secretária de cultura que prometeu uma coisa para os artistas e não fez", conta Aldenor. Para criticar a traição, ele escreveu uma metáfora em cordel sobre uma formiga e um tamanduá e jogou de graça num blog.
O texto fez sucesso, virou livro, e, com a Lei Aldir Blanc, foi transformado em curta-metragem. O que era para ser uma piada interna do lavrado, com zabumba, triângulo e gírias de Roraima, explodiu. O filme rodou o Brasil, foi para Estados Unidos, Inglaterra, Colômbia, Nigéria e acabou premiado até na Índia, a terra de Bollywood. "A princípio, era pra ser algo muito local, muito daqui... e de repente, foi ganhando a simpatia de outros públicos", comemora.
Fronteiras, Distopias e Personagens Imperfeitos
Boa Vista deixou de ser apenas uma capital distante para virar a vitrine da crise migratória venezuelana. Aldenor processa essa geopolítica caótica de um jeito muito próprio. Em seu livro Dourado e Brisa, ele homenageia artistas de rua venezuelanos que vivem nos semáforos. Já em outra obra, uma distopia, ele usa "seres de barro" escravizados por "seres de pedra". "É uma obra aberta. Podem ser venezuelanos, outros podem ver indígenas, podem ver mulheres sendo oprimidas", explica.
Seus personagens são como o vizinho ou o amigo do bar. "Os meus personagens são muito humanos, eles são falhos, têm defeitos. Eu não quero alguém que tenha só virtudes", diz ele, revelando seu método de criação.
A Raiz no Lavrado
Aldenor já tentou sair. Morou em Goiânia, Uberlândia, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul por causa dos estudos, mas a bússola sempre apontava de volta para Roraima. "Eu não sei dizer se seria mais fácil para mim ser escritor em outros lugares. Mas eu devo muito a aqui. Eu sou quem eu sou hoje porque esse lugar me fez".
Antes de pagar a conta do nosso café, pedi um conselho final para a molecada que quer entrar na vida de escritor. Aldenor foi prático, comparando a escrita ao esporte: "A leitura é o alimento do escritor, assim como um atleta precisa estar bem alimentado. É a partir desse alimento que o escritor tem matéria-prima".
E sobre o ato de colocar as palavras no papel? A regra dele é clara e libertadora: "Escreva sem receio, sem se podar."
Aldenor Pimentel é um escritor consagrado com centenas de prêmios literários nacionais e internacionais. Algumas obras: Deus para Presidência (2015), Livrinho da Silva (2017), A inacreditável história do milho gigante (2019) e Filhos de Vênus (2024).
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Fotos por: Revista Rio Negro
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