O teto do Teatro da Instalação tremia. Literalmente. Enquanto tentávamos conduzir uma entrevista no palco vazio, sapatilhas de balé golpeavam o piso do andar de cima em um ensaio frenético. O barulho era ensurdecedor, invadindo o áudio e a conversa, mas criava o cenário perfeito para falar de resistência cultural em Manaus: caótico, barulhento e vivo.
Ali, sentado em uma das duas cadeiras propositalmente isoladas no centro do palco, estava Allison Leão. Escritor, professor e pesquisador, Leão é uma daquelas figuras que conhece as entranhas da literatura amazonense, não só pelos livros, mas pela vivência. Ele não tem a postura rígida de um acadêmico inalcançável; sua formação veio da rua, da oralidade e de enciclopédias compradas com sacrifício em um bairro da zona sul de Manaus.
Entre o baque dos passos de dança sobre nossas cabeças e o silêncio do auditório vazio, conversamos sobre a falência do sistema educacional, a "microfísica" da cultura e por que, no fim das contas, escrever é um ato de combate, não de prazer.
“Ser um escritor não significa publicar um livro. Significa estar sempre vendo a vida de um ponto de vista poético.”

Revista: De onde vem essa sua "visão" literária? Você cresceu cercado de livros?
Allison Leão: Pelo contrário. Tive uma infância regional de classe pobre. Não era comum ter livros em casa; o que a maioria tinha era a Bíblia. O que havia era o esforço dos adultos em comprar aquelas coleções de enciclopédias de porta em porta. Minha relação com a literatura nasceu na oralidade, convivendo com gente que contava histórias, e na rua, inventando brincadeiras. Hoje entendo que essa liberdade na infância criou as bases para quem sou, mas na época a gente não tinha consciência disso. A gente só vivia.
Revista: E quando você percebeu que isso viraria profissão?
Allison Leão: Foi num cruzamento de caminhos. Fiz magistério aos 14 anos, um curso humanista onde li filosofia, sociologia e psicologia. Mas o estalo veio na faculdade, com um professor que era escritor. Ficar em volta dele me fez começar a diferenciar estilos e épocas. Logo percebi que eu vivia em um lugar — a Amazônia — que tinha uma riqueza literária própria. Comecei a me situar não só como leitor, mas como parte de uma tradição.
Revista: Você acha que publicar é o que define um escritor?
Allison Leão: Claro que é importante publicar, mas ser um escritor não significa publicar um livro. Ser escritor significa estar sempre pensando, vendo a vida de um ponto de vista poético e articulando isso na linguagem. Desse ponto de vista, eu nunca deixei de ser escritor. Mas cuidado com a pressa. Antes de ser um "bom escritor", é preciso devorar livros. Essa geração jovem tem um ideal de genialidade que é válido, tem energia, mas só o ímpeto não basta. Sem leitura, o escritor estagna.
“A ideia de formar leitores livres não é positiva para quem detém o controle.”
Revista: O norte lê pouco. Por que chegamos nesse índice tão baixo? Preguiça ou falta de projetos?
Allison Leão: É um problema de estrutura social dramática. Hoje as crianças estão na escola, os índices de frequência são maiores que na minha época, mas a educação não está pautada pela emancipação. O sistema parece desenhado para formar mão de obra obediente, não leitores críticos.
Eu poderia dizer que é negligência do Estado, mas prefiro olhar por outra perspectiva: esse é, na verdade, um projeto de controle. A leitura literária expande consciências. Formar indivíduos lúcidos e leitores não é uma ideia positiva para quem quer manter o controle social.
Revista: E como a gente luta contra isso? Os projetos culturais funcionam?
Allison Leão: Eu acredito na pulverização. Um lugar onde a cultura está pulverizada, com microiniciativas — o circo de bairro, o teatro de bolso, o coletivo de escritores da periferia — é muito mais saudável do que um lugar que depende de grandes espetáculos e monopólios. Essa "microfísica da cultura" forma novos escritores e públicos reais. No somatório, o alcance dessas pequenas ações é maior e mais transformador.
Revista: Falando em cenário local, o que você vê de interessante acontecendo na literatura do Amazonas agora?
Allison Leão: Tem muita coisa boa surgindo ou sendo redescoberta. Destaco a Priscila Lira, com Manual de Feitiçaria e O Barulho do Mormaço, e o Thiago Roney, com O Drone de Yebá Buró. Tem uma geração nova pulsando, como o Inácio Oliveira e a galera da literatura marginal ligada à Revista Cirrose, além da Márcia Antonelli com seus contos e poemas.
Mas também vejo justiça sendo feita com os veteranos. A Verenilde Pereira, por exemplo, publicou O Rio Sem Fim em 1998 e só agora, perto dos 70 anos, recebe o reconhecimento que merece de grandes editoras. É bonito de ver: uma veterana vivendo a euforia de uma estreia.
E não dá para ignorar as figuras incontornáveis: o Zemaria Pinto, escritor e pensador cuja obra já tem lugar garantido na história local, e o grande poeta Claudio Fonseca, que foi meu professor. Além, claro, desse trânsito oceânico que o Saturnino Valladares (poeta espanhol que vive em Manaus), faz ao traduzir obras de lá para cá.

“O ato da escrita é um ato de combate. A melhor parte fica com o leitor.”
Revista: Quais são suas referências? O que forma a cabeça do Allison Leão?
Allison Leão: Meu livro favorito é Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa. É a coisa mais chocante e comovente que já li. Na poesia, sou devoto do Luiz Bacellar, um dos maiores poetas que o Brasil produziu, embora o país pouco o conheça.
Mas tenho olhado muito para fora, para a nossa identidade latino-americana esquecida — Juan Rulfo ou José Maria Arguedas — e para a África lusófona. A estranheza de ler em castelhano ou o português de Angola é um processo delicioso de reconhecimento e distanciamento.
Revista: Para fechar, com todo esse barulho na cabeça: que conselho você dá para quem quer se jogar nesse rio e ser escritor?
Allison Leão: Leia. Não se canse de ler. Wisława Szymborska, a poeta polonesa, dizia que quem quer ser escritor está escolhendo a pior parte. O leitor tem a melhor parte: o prazer. Escrever não é prazeroso para mim; o texto pronto é prazeroso, mas o ato da escrita é um combate, um burilamento, um esforço de desgosto e reconstrução.
Lendo muito, duas coisas podem acontecer: ou você desiste de escrever e fica só com a melhor parte (ler), ou você percebe que, apesar de tudo, precisa escrever. Aí sim, você trabalha para construir isso.





Allison Leão é escritor, professor e pesquisador. Ele é um leitor voraz capaz de decorar nomes de autores, livros e frases de forma científica. Utiliza esse vasto repertório de forma natural levando a conversa para sua zona de conforto: o amor pela literatura. Allison é autor de três livros: Jardim de silêncios (2002), O amor está noir (2004) e Amazonas: Natureza e Ficção (2011)
Apoio da Secretaria de Estado de Cultura e Economia Criativa do Amazonas e Adaixa Cosméticos
Teatro da Instalação – Outubro, 2025
Fotos por Revista Rio Negro

