O EXILIO por Mouzaniel Vieira

Manaus, 1930.  O  sol amanhecera radiante no céu amazônico.  Um belo Cadillac preto aproxima-se lentamente  das redondezas do mercado Adolpho Lisboa desviando com muita dificuldade dos transeuntes que provocam um movimento intenso entre estivadores, carregadores, consumidores e passageiros com destino às diversas cidades espalhadas no interior da floresta amazônica. 

Após estacionar, o carro é cercado por homens suados,com suas peles queimadas e rostos envelhecidos pelo trabalho extenuante embaixo do sol. O chofer desce e ordena que levem as bagagens para o barco Flor do Paricatuba, mas ao ouvir as palavras, os homens se afastam-se do carro e partem aterrorizados.

—Não se preocupe Arman! Ordena do interior do carro um jovem de terno e calça branca, usando um chapéu Panamá ao lado de uma elegante senhora.

—Bando de covardes! Esbraveja o chofer enquanto abre a porta para o jovem descer.

De repente ambos são surpreendidos por um carregador: 

—Precisam de ajuda?

—Sim, precisamos levar essas bagagens pro Flor de Paricatuba, tem algum problema? Responde rispidamente o motorista.

—O seu bolso é meu guia, chefe! Responde o homem expondo os cacos de dentes amarelados enquanto solta uma gargalhada debochada.

—Vamos ajude-nos a levar essa caixa de madeira, mas cuidado para não deixá-la cair, está carregada de vidros de medicamentos!Ordena carrancudo, Arman.

—Pelo amor de Deus Edward, você tem um futuro brilhante aqui na capital, desista dessa loucura meu filho! Temo por tua saúde naquele lugar e com aquelas pessoas no meio do nada meu filho, teu pai pode falar com o governador para arranjar-te um trabalho em algum centro de saúde aqui mesmo na capital ou podes abrir tua própria drogaria aqui no centro da cidade!

O jovem tira o chapéu da cabeça para sentir a brisa fria roça-lhe os cabelos castanhos, após olhar tudo ao redor: o mercadão ,os casarões e a orla de areia branca e fina , Edward volta-se para a mãe e acaricia-lhe o rosto empoado e delicado .

—Não fique assim minha mãe, preciso fazer algo por aquelas pessoas , pesquisar e quem sabe até encontrar a cura para a enfermidade que lhes devora a carne!

—O teu pai está destruído, mas se é isso que desejas fazer, vá com Deus e nos perdoe , tudo o que fizemos por você foi por amor! Agora vá, o comandante o espera, não tenho forças para entrar naquele barco!

Ambos se abraçam , após beijar-lhe a tez, Edward segue rumo ao barco!

Da amurada ele acena com o chapeu para a mãe e para o motorista enquanto o Flor do Paricatuba singra lentamente,rasgando as aguas do rio negro rumo a vila do Paricatuba na margem  direita do rio negro.

Algumas horas depois, o barco aproxima-se da margem sendo auxiliado por alguns colonos da vila que ajudam reduzir a velocidade do mesmo e a amarrá-lo. Os tripulantes baixam a escada para transportar as mercadorias e encomendas enviadas por parentes aos pacientes moradores da vila sendo recebidos por Ciprião ,o administrador do hospital.

—Seja bem vindo Dr. Edward a Vila de Paricatuba, o administrador do hospital irá apresentar-lhe o local e a todos os moradores! Avisa o comandante.

Edward desce a escada, aproxima-se do misterioso homem com o lado direito do rosto coberto por um pedaço de pano e um chapéu para protegê-lo do sol. Ambos se cumprimentam:

—Seja bem vindo ao hospital Belisário Penna Dr. Eduardo, sua presença irá ajudar muito aos nossos amigos que vivem aqui no mais completo estado de abandono!

—Obrigado pela recepção meu amigo peça a seus colaboradores para levar com cuidado a minha caixa de medicamentos para a farmácia do hospital!

—Venha, acompanhe-me ,vou lhe mostrar o prédio, não se assuste com  a aparência de alguns moradores, alguns estão há anos sem receber a visita de parentes vivendo apenas com a ajuda de uma sociedade beneficente de algumas senhoras de Manaus!

Ambos sobem a escadaria  passando pela porta de entrada que leva ao salão principal. Ao passar por um dos aposentos, Edward percebe a silhueta de alguém a espreita-lo e ao tentar se aproximar, a figura desaparece entrando num corredor escuro. Ele tenta seguir mas é impedido pelo administrador:

 —Não faça isso, aqui existem regras! Aqui muitos ainda não aceitaram seu destino, pior que a enfermidade da carne ,é a enfermidade da mente!

Ambos continuam  a sua caminhada enquanto os pacientes observam uns admirados outros com indiferença .

—Diga-me Ciprião, por que o nome Paricatuba?Percebi que até o barco recebe esse nome.

—Essa região era tomada por paricá, uma  planta usada pelos índios , ela tem efeito alucinógeno. Quanto ao  barco, recebeu esse nome por causa de uma bela jovem que veio parar aqui! Responde sorrindo o velho administrador.

—O que traz um jovem  bem apessoado e farmacêutico, de família abastada como você para viver em meio a tantos desgraçados,vítimas da lepra?

—Minha missão é promover a cura, através da pesquisa e do preparo de fórmulas,após ouvir a história de vida dessas pessoas  decidi que estava na hora de contribuir com meus conhecimentos!

—Aqui, até mesmo pessoas de posses são exiladas e esquecidas para não envergonhar ou condenar suas famílias ao escárnio da sociedade! Avisa o administrador.

Ambos passam por um aposento e apesar da pouca luminosidade, o jovem farmacêutico consegue enxergar um quadro cuja imagem lhe chama a atenção: —Espere! De quem é aquele quadro? Quem é aquela moça?

—Ela era nossa mais bela flor, quando chegou aqui ainda possui uma beleza radiante, porém  com o passar dos dias, dos meses e dos anos foi definhando mais pela tristeza do abandono da família do que pela própria enfermidade!

—No início a família ainda a visitava, lhe enviava presentes, revistas com as últimas tendências no mundo, porém a tristeza por não poder conviver com aqueles que amava, lhe invadiu a alma, ordenando que não queria receber mais ninguém e nem queria saber mais nada do que acontecia fora da vila!

Após ouvir em silêncio a história contada pelo administrador, Edward com a voz pesada pergunta-lhe:

—E onde ela está agora?

O administrador percebe a mudança no tom de voz do jovem farmacêutico e ao olhar para ele, percebe as lágrimas deslizando pelo rosto: 

—O que houve meu rapaz? Nesse lugar você ainda ouvirá histórias mais tristes do que dessa pobre jovem!

—Essa mulher era minha noiva! Do nada me disseram que ela desistiu de casar-se e partiu para a Europa!

Comovido pela dor do rapaz, o administrador conta-lhe o restante da história: —Ileana chegou numa madrugada fria e chuvosa trazida pelo pai Dom Alonzo Montevas e alguns empregados, ela chorava bastante para que o pai não a deixasse, mas não teve outra escolha, disseram que era o melhor para ela e que sempre a visitariam, o que de fato não aconteceu! Ele depositava todos os meses uma quantia para que cuidassem da jovem e não lhe faltasse nada, porém ordenou que ninguém mencionasse a que família ela pertencia!

Arrasado com a descoberta, Edward pergunta: E o que houve com ela? Onde ela está?

—Como eu lhe disse, a tristeza a consumiu pouco a pouco! Certo dia ela não apareceu para tomar café, achamos estranho, caminhamos até o aposento no qual a encontramos morta!

Tomado pela dor, o jovem cai de joelhos com as mãos no rosto:

—Ela era a minha noiva!

Sem que ambos percebam, o vulto misterioso surge e observa-os por trás de uma cortina encardida pelo tempo.

…continua.

Mouzaniel Vieira Rodrigues (49 anos) é farmacêutico, professor, escritor e produtor cultural, natural de Manaus e registrado em Anori (1976). Desde a infância, desenvolveu o gosto pela leitura, escrita e arte, influenciado pela família.

Atuou no Clube de Quadrinheiros de Manaus (1994) e no Salão do Quadrinho e do Humor (1995). Publicou contos em antologias do SESC (2005 e 2008) e participou de coletâneas no Brasil, Colômbia e Portugal (2022-2023).

Fundador da Associação dos Farmacêuticos do Amazonas (ASFAM), criou o Espaço Cultural Bob Medina (2024) e ingressou na ALACA e ASSEAM. Teve contos publicados e projetos aprovados, incluindo Vidas em Contos.

Em 2025, lançou O Exílio na UEA e planeja novos lançamentos, como Vidas em Contos, Coração Cabano e a exposição Homens de Barro.

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